Como a vida de um cão vai sendo, assim, mais que uma vez.

Sabem quando começam a ouvir uma história e, quase sempre, o início é “era uma vez…”? Pois eu acho que todas as histórias têm vários inícios e por isso deveriam começar com “foi assim uma vez”.

Eu sei que não sou um entendido na matéria, afinal de contas sou um cão e, como todos sabem, aos animais atribui-se a incapacidade de pensamento lógico, racional. Dizem que é o que nos distingue dos humanos. No entanto, por mais irracional que seja, acho que nunca perdi a minha capacidade de me deslumbrar com a vida e de aprender com ela. Poder contar-vos, partilhar, os meus “foi assim uma vez” é algo que farei com muito prazer agora, aqui, nas palavras que vos escrevo.

Foi assim uma vez que começou a minha vida, nasci como todos os outros cães, de uma super-mãe que carregou consigo vários cachorrinhos e que depois os colocou no mundo com muita coragem e com muito amor. Cuidou de mim e dos meus irmãos da melhor maneira que sabia e com toda a dedicação. Fazia parte da nossa história de vida separarmo-nos e, um dia, quando atingimos a idade certa, lá foi cada um para seu lado. Como se os laços de amor que nos uniam não existissem, não houve tempo para despedidas ou lamentações, cada um de nós foi levado para um forçado recomeço onde o quem éramos até então viria a ser esquecido.

E foi assim uma vez que começou outra história, cheguei a um lugar que me era estranho e onde fui acolhido por humanos, até então uma espécie quase desconhecida, e estes prontamente me fizeram ver que neste novo local, que agora passaria a chamar de casa, eu estava perfeitamente desadequado. Havia alturas em que tudo o que era e fazia estava errado: não ladra, não rói, não faz xixi, não pula… não, não, não… era muito confuso, mas uma outra coisa muito extraordinária aconteceu, estes humanos rapidamente se tornaram nos meus humanos, e eu senti que agora seriam a minha família. Era com eles que queria brincar, era com eles que queria estar, dar lambidelas, receber festinhas. Cuidavam de mim e eu cuidava deles, tarefa que levei sempre muito a sério. Sei que muitas vezes ficavam zangados comigo, gritavam, faziam barulhos… eu admito que às vezes “o meu cão” era mais forte que eu, mas nada do que fizessem diminuía o amor que sentia por eles, pelo contrário, com o passar dos anos o amor cresceu e cresceu e eles eram cada vez mais meus. Só meus.

Foi assim uma vez que um dia saímos todos de carro, nunca sabia para onde íamos mas adorava passear de carro. Pulava e ladrava o tempo todo, que entusiasmo era ver os carros a passar e tudo a andar tão rápido, o vento no focinho… uau, estava tão feliz que quando pararam e me deixaram sair não me apercebi que tinham ido embora outra vez, mas sem mim. Foi o meu momento mais assustador de sempre, só pensava “perdi os meus humanos!”. A minha tarefa mais importante era protegê-los, guardá-los e falhei. Falhei redondamente. Não sabia onde os tinha deixado e como salvá-los. Eles podiam estar em perigo sem mim. Procurei por todo o lado, cheirei o rasto deles até o perder. Sentia tanta culpa por os ter perdido e ao mesmo tempo medo, tanto medo por eles, será que eles estavam bem sem mim para os proteger… Quem é que ia agora ficar atento de noite aos barulhos estranhos, quem ia ladrar aos desconhecidos que pareciam mal-intencionados… quem? Percorri muitos quilómetros até que tive de parar, não havia forma de os encontrar, restou desejar que me perdoassem por tê-los perdido e que algum outro cão pudesse tomar conta deles no meu lugar.

E foi assim uma vez que, já não sei quanto tempo depois de ter perdido os meus humanos, depois de ter que viver na rua, sem casa e sem humanos para brincar e lamber, que me apanharam e levaram para um local novo. Este local tinha mais cães que humanos e, devo confessar, era um bocado confuso e barulhento, nem sempre me sentia feliz. Era muito bem tratado, havia sempre comida (essa tinha sido escassa ultimamente) e brincadeira também, mas aqueles não eram os meus humanos e eles já tinham tantos cães para os amar e guardar… estava bem, mas não estava totalmente feliz.

É do conhecimento geral que um cão tem como a sua principal tarefa cuidar dos humanos que o escolhem, todos os cães precisam de humanos, porque todos os humanos precisam de um cão. Uns servem os outros. Nós, cães, cuidamos, protegemos, amamos incondicionalmente. Os humanos cuidam, brincam e amam, também eles incondicionalmente. Pelo menos assim o deveria ser, é a ordem natural das coisas. Não deviam os cães perder os seus humanos e os humanos perder os seus cães, isso não devia acontecer. Mas acontece e quando acontece, bem, não queiram saber o que custa. Para mim, perder os meus humanos, foi como perder parte de mim, da minha essência. A minha alegria e razão de existir desapareceu dentro daquele carro que partiu sem mim…

Mas… foi assim que uma vez essa alegria pôde ser reposta e, para mim, pelo menos há esperança em sentir-me um verdadeiro cão outra vez. Ganhei novos humanos, e eles ganharam-me. São diferentes, as regras são outras, mas sinto tão claramente que eles também não estavam completos, como eu, e que agora que nos encontrámos, unimos as nossas vidas e ganhámos, eu e os meus humanos, novas razões de existir. Volto a amar e ser amado incondicionalmente. Algo me diz que estes eu não vou perder, são especiais, também eles procuravam uma nova oportunidade de serem felizes e agora vamos poder ser felizes juntos.

 

Mónica Reis

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